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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

CRISE DAS IDEOLOGIAS: UMA ENTREVISTA ATUAL COM O HISTORIADOR JACOB GORENDER



CRISE DAS IDEOLOGIAS
Entrevista com o historiador Jacob Gorender, realizada por Mário Alex Rosa; Jardel Dias Cavalcanti e Jailson Dias Carvalho em 25-09-1990[1]

Introdução

O Núcleo de Estudos Históricos do Instituto de Ciências Humanas (ICHS), da Universidade Federal de Ouro Preto, surgiu em um período de profunda apatia na qual se abatia o país no ano de 1990 e, mais particularmente, naquele Instituto. À medida que foi amadurecendo, o NEH-ICHS percebeu que era preciso haver produção cultural, combinada com palestras e debates que, por si e em si, instigariam o pensamento a exigir sempre mais. O saber é exigente e possui sabor. E foi com este pensamento que entrevistamos o Historiador Jacob Gorender (1922-2013), importante militante do PCB, na década de 60, e um dos fundadores do PCBR, autor dos livros Combate nas Trevas (1987) e Escravismo Colonial (1978). Conversamos sobre a política daquele período; a situação do Marxismo após a queda do Muro de Berlim e a Perestroika; alguma coisa também sobre literatura e a produção acadêmica brasileira. Esperamos que os leitores possam mergulhar um pouco nesta “história viva” e resgatar conosco o saber com saber.

Gostaríamos de saber – já que o senhor disse que o marxismo está em crise e que esta crise é uma crise de crescimento [Para um maior aprofundamento, confira a conferência do Historiador Jacob Gorender: GORENDER, Jacob. Fim do milênio ou fim da História. In: LPH – Revista de História, UFOP, Mariana, v. 2, n. 1, p. 5-16, 1991] - se é possível confiar num método em crise? Quais categorias do método marxista seriam confiáveis?

É justamente no método que devemos confiar, possivelmente, o método que nos permitirá sair da crise, o apego as certas teses particulares isoladas é que podem dificultar a saída da crise por parte do marxismo no sentido de uma renovação, de uma concepção adequada da realidade atual [1990]. Então, o fundamental é exatamente [usar] o método dialético materialista à nova situação, sem ter qualquer apego à conservação de teses especiais, que já não correspondem à situação atual. Então, neste método, o que pode ser considerado aproveitável. Eu creio que, em primeiro lugar, a visão dialética é que as coisas não são estáticas da vida social. E, justamente agora, estamos vivendo uma situação de profundas mudanças, e com esta visão dialética poderemos compreender que não se trata de um fim da História, mas do contrário, de que a História está transitando numa situação de uma constelação de forças para outra no plano mundial e, em particular, em vários países. Em segundo lugar, eu considero que continua válida a visão marxista de que a base do desenvolvimento social e das instituições gerais da sociedade está no seu modo de produção, está na atividade que produz bens e serviços dos quais a sociedade se abastece e que são indispensáveis à sua sobrevivência. Ainda agora no fundamental, os grandes, os gravíssimos problemas nos países do chamado socialismo real, o desmoronamento de alguns deles, resulta, antes de tudo, no fracasso dos métodos de planejamento burocratizado, ultra-centralizado, que fecharam o acesso da nova tecnologia da revolução científica tecnológica, e deram origem à formação de uma camada privilegiada e se superpôs ao conjunto dos trabalhadores. Então, esta tese continua aplicada também à situação atual. Ao mesmo tempo, é evidente que a aplicação do método marxista precisa se desvencilhar desse vício que tem sido tão arraigado da visão economicista, indiscutivelmente, e ampliar a pesquisa dos fatores econômicos para a pesquisa de toda a espécie de fatores ideológicos e, mais ainda, recebendo a contribuição de novas correntes historiográficas, apesar de tudo de negativo que elas possam ter, mas aproveitando delas essa ampliação para o imaginário, o simbólico, as ideias que se têm do passado que são residuais, mas que têm influências do presente que, hoje, afloram como estamos vendo com tanta força no fundamentalismo religioso e nacionalismos exacerbados.

O que a gente perdeu em 1964, se é que existe esta categoria perder, e qual a sua ligação com as eleições de 1989 para presidente da República? O que significaram as eleições para a sociedade brasileira e para a esquerda. E, no segundo turno, o que significou a candidatura Lula?

Capa do livro Combate nas trevas de Jacob Gorender em sua terceira edição.

São dois assuntos distantes no tempo, mas que não deixam de ter certa ligação. Em 64, eu creio que o que se perdeu no Brasil, por parte das forças democráticas progressistas, anti-imperialistas em geral, foi a oportunidade de deslocar o Brasil, e de tal ordem que a hegemonia dos EUA se veria abalada aqui no nosso continente. Foi isso que se perdeu. Evidentemente, se isso acontecesse dar-se-ia um passo muito grande no sentido de inaugurar a transição para o socialismo aqui no Brasil. Mas, em primeiro lugar, o que se conquistaria seria a passagem do Brasil para a frente anti-imperialista mundial. Já existia Cuba e o Brasil passando para esta posição, dado a sua grandeza e seu potencial muito maior do que o de Cuba, isto tem uma significação enorme, mesmo que o país não passasse imediatamente para o socialismo. Isto levaria algum tempo. Os EUA, os círculos dirigentes norte-americanos, perceberam isto imediatamente. Daí a interferência constante do embaixador Lincoln Gordon [1913-2009] naquela época nas questões internas brasileiras e a advertência direta do presidente Lyndon Baines Johnson [1908-1973] ao governo brasileiro, quando o governo brasileiro apoiou certas ações militares, como os sargentos no Automóvel Clube do Rio de Janeiro nas vésperas do golpe. E, finalmente, quando se declarou o golpe, os EUA mandaram uma força tarefa naval do Caribe, e que começaram a se dirigir ao Brasil para apoiar os insurretos. E esta força tarefa, em poucos dias depois, recebeu ordens de se dissolver porque não era mais necessária, a situação aqui tinha produzido vitória aos golpistas. Então, por aí a gente vê o quanto o Brasil é importante no esquema norte-americano e não podemos ter ilusões – porque, se amanhã de fato houver mudança de posições em nosso país no sentido de desafio à hegemonia dos EUA, nós poderemos de haver com eles, que procuram asfixiar todos os meios, inclusive militares. Então, essa oportunidade se perdeu em 64, evidentemente, por motivos que eu procurei no meu livro Combate nas Trevas [1987], explicar. É isto que eu posso dizer sobre 64. As consequências nós bem conhecemos. Quanto à eleição de Lula, foi um fato extraordinário, porque destoou entre outros aspectos ao conjunto de derrotas que a esquerda vem sofrendo no plano mundial. Enquanto que, no ano de 1989, todo o leste europeu sentia-se atingido por um furacão de mudanças, muitas delas levando forças de direita ao poder, em substituição aos comunistas, de volta ao capitalismo e não de transformação do socialismo; enquanto isto, aconteciam também os fatos referentes à Praça da Paz Celestial em Pequim e tantas outras... Aqui no Brasil, o candidato do PT conseguia uma votação muito importante no primeiro turno, credenciando-o a passar para o segundo turno, e no segundo turno teve trinta milhões de votos, 47% do total dos votos válidos, isto causou uma impressão muito grande no mundo, e, em particular, na América Latina, enquanto a esquerda era derrotada no Peru, no Chile, na Argentina tinha um resultado medíocre. Certa exceção pode ser também constatada em relação ao Uruguai, onde a frente ampla teve uma boa votação, 22%, e fez o prefeito de Montevidéu. Mas, no conjunto do mundo, o que havia era um recuo das forças de esquerda na conjuntura mundial.
Então, essa votação de Lula, mesmo não tendo ganhado as eleições, causou profunda impressão. Eu pude comparecer como convidado a uma reunião que se realizou em São Paulo, promovida pelo PT, de 53 organizações de esquerda da América Latina e do Caribe. Desde PCs de vários países, inclusive PC de Cuba, até guerrilheiros de El Salvador, grupos trotskistas e grupos de variadas tendências, e ficou evidente que todas essas forças de esquerda da América Latina rendiam homenagem muito sincera ao desempenho do PT nas eleições presidenciais do segundo turno. Infelizmente, não podemos prefigurar pelo que vai acontecer nestas eleições agora, pois não houve uma continuidade do desempenho da campanha presidencial com a atual campanha [refere-se à campanha eleitoral de outubro de 1990], pelo menos na grande maioria dos Estados. É algo que ainda tem que ser estudado, porque não é um fenômeno de um só Estado, cada Estado tem características particulares, mas é um fenômeno que está se dando em plano nacional. O impulso obtido com a eleição presidencial, de certo modo, não se transferiu à atual campanha eleitoral. Depois, nós teremos a oportunidade de fazer um balanço disso. Acredito que a direção do PT se empenha neste balanço. Mesmo porque a campanha eleitoral ainda não terminou e ainda pode haver recuperação de algumas posições.

A proposta de George Bush [presidente dos EUA entre os anos de 1981-1989] sobre a organização latino-americana seria uma nova estratégia do capitalismo para a América Latina em função de outros blocos que estão se configurando no mundo: Europa 92, os Tigres Asiáticos, EUA, Canadá e o norte do México? Seria uma resposta para a América Latina?

Certamente. Como me referi ontem [Conferência sobre Fim do milênio ou fim da História], a nova estrutura do sistema capitalista mundial consiste na formação de blocos, já não como no passado, as grandes potências, cada uma lutando por si, embora houvesse já no passado, alianças, mas havia sempre fronteiras com barreiras protecionistas... especialmente, nas conjunturas em crise. Os anos 1930 levaram ao paroxismo e restringiu muito o comércio mundial.
Hoje, a tática é outra, as forças produtivas dos países avançados não podem mais se conter dentro de fronteiras nacionais, produzindo para mercados mundiais, senão não é vantajoso. Então, em primeiro lugar, procura-se garantir não só o mercado nacional somente, mas o mercado em bloco, isto é, mais potente, é evidente na Europa ocidental, que é um aglomerado de nações, muitas bem pequenas, e que hoje está constituindo um bloco e que, praticamente, já não há fronteiras, o que ainda sobra destas fronteiras do ponto de vista econômico vai desaparecer em 1992, criando-se até uma moeda europeia. Mesmo o Japão também há uma integração com os outros países asiáticos; os EUA já estão integrados com o Canadá, o México está sendo integrado, particularmente, em sua região norte aos EUA. O presidente Bush fez a proposta de integração total da América Latina. A América Latina é considerada a área prioritária dos EUA. A abertura de fronteiras, cessação dos protecionismos, de livre circulação de mercadorias em todos os países na América Latina, eis o objetivo. Evidente que se trata de um domínio do capital norte-americano mais acentuado do que existe agora sobre a América Latina. Se já com proteção aduaneira, com dificuldade se construiu a indústria nacional no Brasil, que é o país onde há mais condições para isto dada a dimensão de seu mercado, é claro que, sem essa proteção, esta indústria, em parte, não vai conseguir resistir, e a que conseguir resistir vai ter que se associar a grupos industriais norte-americanos. Com a abertura completa das fronteiras, a anulação de barreiras aduaneiras, como propõe Bush, a liberdade total de comércio vai favorecer as grandes corporações norte-americanas. Isto não quer dizer que nós devemos nos colocar contra a integração econômica dos países da América Latina, nós não estamos mais nos anos 1950, em que o Brasil formou uma indústria dentro do seu território, achatando a linha de substituição de suas importações, isto já é insuficiente e, às vezes, até nem é benéfico, precisamos absorver a tecnologia, a nova tecnologia que está se aplicando nos países mais avançados. Mas isto tem que ser feito sobre o nosso comando, examinando caso a caso, protegendo os setores que continuam a necessitar de proteção e fazendo acordos entre os vários países da América Latina e do Caribe que estão envolvidos nesse processo. Então, eu termino dizendo que a proposta de Bush é uma proposta de aprofundamento do domínio da hegemonia americana nas Américas. E, nesse sentido, é inaceitável a esmola que ele dá, é o perdão da dívida que a América Latina tem com o governo dos Estados Unidos, uma dívida de U$ 7.000.000.000 de dólares, isto num total de 400.000 milhões. Então, não representa nada. Mas, de outra parte, temos que propugnar a integração de nossos países, sobre o domínio de seus representantes legítimos e em defesa também, porém, de seus interesses legítimos.

Nas últimas eleições, o PT foi uma grande ameaça para a direita, como o senhor vê hoje a força desse partido?

Você se refere às eleições presidências de 1989. Sem dúvidas que já respondi aqui. O desempenho do PT foi realmente admirável e tem grande repercussão mundial e, especialmente, na América Latina. O fato de o PT ter sido derrotado causou uma impressão muito profunda em setores consideráveis do PT, e grandes setores de seus aliados. Eu senti isso, houve um clima de grande decepção, esperava-se que o PT fosse vitorioso na campanha presidencial, mas, desde o início, considerei que a vitória era provável, tinha possibilidades, mas era muito difícil, porque o adversário empregaria todos os recursos, como de fato fez, sem recuar diante das maiores baixarias. Em minha opinião, só o fato de ter tido 31 milhões de votos, cerca de 47 % dos votos válidos, isto só, já era uma vitória. Infelizmente, esse clima de frustração prejudicou o esforço do PT em dar continuidade do que tinha sido alcançado na campanha eleitoral. A minha impressão é que o PT ficou uns seis meses, de certo modo, numa atitude de depressão, isto depois pode ser avaliado. Os primeiros três meses foram aqueles meses de início de ano em que a política brasileira, normalmente, entra em baixa, além do mais, havia a expectativa da posse do presidente Collor. Depois veio o Plano Collor, e o PT ainda levou outros três meses para, afinal, definir uma posição combativa. Então, essa demora me parece que foi prejudicial, e de certo modo apagou a presença do PT na mente das massas populares. O que está se repetindo na atual campanha eleitoral. Agora, quanto ao PT nesta campanha, eu creio que há certos sinais de desempenhos que não correspondem à expectativa, mas a campanha ainda não terminou, não vamos prefigurar os resultados. Seja qual for o resultado, o PT vai continuar sendo uma força de grande expressão no panorama brasileiro. Todo partido atravessa situações melhores e piores em campanhas eleitorais. E não é um resultado menos favorável que vai tirar do PT esta posição que ele alcançou como referencial principal de toda a esquerda brasileira, e como o partido que pode liderar uma frente de forças de esquerda no sentido de um projeto por reconstrução socialista em nosso país.

Alguns intelectuais estão avaliando que a América Latina está “caminhando que nem caranguejo”, ou seja, pra trás. E a Europa está tomando outro rumo, diante disso, cabe indagar qual o rumo que o leste europeu está tomando? Um retorno puro e simples ao Liberalismo? E a América Latina?

Não há dúvida de que, sobretudo, a partir dos anos 1970, e, em particular, a década de 1980, foi um período em que a América Latina não avançou, e no seu conjunto ela regrediu. Há uma queda do PIB, do produto per capita. Há uma acentuação das dificuldades econômicas e um agravamento do padrão de vida, de uma melhora do padrão de vida das massas. E muitos países da América Latina ficam receituários clássicos do FMI, no sentido de debelar o surto inflacionário que assola a grande maioria desses países. Os anos 1980 são anos em que pesa sobre esses países a dívida externa, todos eles sofrem os resultados do segundo grande choque do petróleo, que vem, sobretudo, da guerra Irã-Iraque, que duplica os preços. Isso é sentido tanto quanto pelos países produtores de petróleo, como o México e Venezuela, que têm suas receitas drasticamente importadas e se endividam fortemente, como é sentido pelos países importadores, que são obrigados também a gastar mais do que previam em petróleo e a cortar importações e, sobretudo, a produzir superávits a fim de pagar os juros da dívida externa. Então, enquanto os países do primeiro mundo têm condições de promover uma renovação econômica mediante a introdução de novos métodos tecnológicos que propiciam enorme acumulação de capital, na América Latina, se dá o contrário, há um fluxo constante de capital para fora. A entrada de capital é inferior à saída, saldo negativo, e sendo países que já são pobres e que têm uma capacidade de poupança bastante reduzida, a sua situação se torna bem mais instável, e a década de 1980 assinala o crescimento praticamente “zero” no que se refere à renda per capita da América Latina. E aí se inclui o Brasil, pois a renda per capita é muito pequena. O Brasil que já vinha há muitos decênios com outro crescimento, um dos mais altos do mundo, vinha duplicando seu produto. A década de 1990 apresenta uma perspectiva muito boa. Na prática, não mudou, em particular, em nossa casa, estamos agora mais num plano anti-inflaconário e, desta vez, profundamente recessivo.

Em sua opinião, qual a contribuição que a literatura tem dado para a história? Por exemplo, no início do século XX, temos Lima Barreto, Euclides da Cunha que, de certa forma, contribuíram para esse processo histórico via literatura...

Esta é uma pergunta é uma pergunta genérica, eu não sei. Evidentemente, a literatura, de um lado, é uma resultante do processo histórico, e que a literatura não está fora do processo histórico, faz parte dele. E, por outro lado, é nítido também que a literatura influi porque ela é ideologia, ela forma uma psicologia social, ela se engendra em certo tipo de mentalidade por parte dos leitores, daqueles que consomem e absorvem o ensino desta literatura. Isso tem sido em todos os tempos, essa influência existe desde a literatura mais hermética, mais elitista, a literatura propriamente popular, a mais popular, como é o caso brasileiro, a literatura de cordel. Agora, eu não posso fazer uma apreciação de personalidades em especial como você citou, são de início desse século [XX] o papel deles, seria entrar em muitos detalhes. Sim, eu não estou muito atualizado em relação à literatura. Mas me parece que a literatura brasileira não está atravessando um bom momento atualmente. Ela não apareceu com nomes que a gente possa avaliar como tais, depois daquelas figuras exponenciais que vieram dos anos 1930, 1950, 1960, com nenhum romancista novo que, segundo me parece, se coloque à altura de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, e nenhum poeta à altura de Carlos Drummond de Andrade e assim por diante. Isso impondo a produção literária de alto nível de vários países hispano-americanos e mesmo Portugal, que está numa fase de grande expansão do ponto de vista da literatura com repercussão mundial de alguns dos seus novos escritores.

Gostaria de saber do senhor os motivos que o levaram a escrever o livro Escravismo Colonial [1978]...


 Capa do livro O escravismo colonial de Jacob Gorender em sua sexta edição.
 
Eu já tive a oportunidade de me referir a isso em várias entrevistas, em particular. O motivo principal: baseei nas grandes discussões que se travaram na esquerda depois da derrota de 1964, como o PCB era, naquela época, a maior organização, a sua concepção da sociedade brasileira foi posta em causa, e isto foi feito por Caio Prado Jr. no livro A Revolução Brasileira em 1966, que teve muita repercussão. Era muito discutido nas universidades e nas reuniões clandestinas de esquerda. E, depois deste quadro, eu fiquei perplexo, de certo modo, sem bases sólidas para responder a muitas questões quer eram colocadas. Entendi que deveria me empenhar em História do Brasil, porque, até então, minha atividade intelectual era ligada a uma atividade conjuntural, e partir daí, que o ano de 1967, em condição de clandestinidade, eu comecei a empreender esta pesquisa que me levou à leitura de autores já consagrados como Caio Prado Jr. e outros aos quais podia ter acesso naquelas condições precárias. E esse projeto se desenvolveu das minhas circunstâncias bibliográficas que incluíram, naquele momento, até a minha prisão, que se prolongou durante dez anos, até que eu pudesse concluir este projeto. Felizmente, eu consegui. Foram estas as razões. Eu queria contribuir para um esclarecimento à sociedade brasileira de que a escravidão era uma questão chave, a primeira questão chave que precisava ser respondida e daí lutei em escrever um livro um tanto prolongado com pretensões de síntese, mas, apesar de ser pretensioso, eu considero que poderia me repreender em fazê-lo. A pesquisa se desenvolveu fora dos muros universitários. Eu não pertencia à universidade, e ainda vivia na época do Médici [1969-1974], depois no governo Geisel [1974-1979], então, eu tinha muito pouco contato com intelectuais acadêmicos, que eu cito muitas vezes. E o fato do livro ter um caráter acadêmico foi intencional, porque eu queria que o livro tivesse uma plena fundamentação, fosse inaceitável por esse lado, e, depois, não viessem a dizer que são chutes, são afirmações sem base, porque, infelizmente, a produção teórica de nossa esquerda, até hoje, predominante, é na base de afirmações que não são lastreadas em pesquisas, e fundamentos etc. Apesar de haver certa melhora, ela ainda é pouco significativa nestes aspectos. Então, eu pretendi que, no caso do meu livro, cada afirmação que eu fizesse fosse de fato fundamental. Daí o acúmulo de notas de rodapés, citações etc. Resumindo: sem dúvida, um aspecto acadêmico, embora sua estruturação não seja, na maioria, propriamente acadêmica. E o que eu posso notar hoje é que o livro tem mais repercussão dentro dos meios acadêmicos do que propriamente na esquerda, na esquerda acadêmica. Na esquerda, em geral, ele pode ser conhecido, e vai tornando mais conhecido, mas ainda é pouco lido. O que eu atribuo, de uma maneira geral, é ao fato de que a nossa esquerda lê pouco. Ainda acontece até hoje.

Diante dessa crise dos acontecimentos que estamos vivenciando hoje no mundo [queda do Muro de Berlim, Massacre na Paz Celestial em Pequim, etc.], como podemos considerar esse projeto socialista... Em primeiro lugar, em relação, por exemplo, ao legado leninista, da questão da teoria do partido, do centralismo democrático; teremos que pensar na teoria do partido socialista, tal como existe até hoje; na questão do Estado, como, por exemplo, a República Soviete. Nós teremos que incorporar elementos do parlamento burguês na organização do Estado e, particularmente, em termos de viabilidade do projeto socialista em função da falência do stanilismo e em função da falência da crise da luta armada, inviabilidade do eurocomunismo. Qual é a via pro socialismo nos dias atuais?

Esta pergunta é muito ampla, pediria mais uma conferência [risos] para respondê-la. Acho importante, em primeiro lugar, o que se chama de herança leninista que também está em discussão. O que é válido nela, o que não é, até que ponto nós poderemos partir de Lênin, o que não devemos aceitar, das suas afirmações, das suas teses, das suas tomadas de definição em um momento ou outro. Eu, em particular, não uso o termo leninista, eu só falo em marxismo, já há muito tempo, antes da Perestroika, vocês podem ver em meus textos que não existe essa expressão marxismo-leninismo, porque eu acho que a produção de Lênin tem elementos que de fato são universais, mas não justificam que criem esse termo. E, em grande parte, Lênin é especificamente russo, o que ele fez, a sua atuação nos processos revolucionários têm a marca das circunstâncias da Rússia, e não podem ser transportados para outros países, essa que foi uma grande tragédia, transpor um modelo russo, que já era mau para a Rússia, para todo o leste europeu, e que, através da III Internacional, se tornasse universalizada. Agora, as outras questões: é claro que nem ele tem responsabilidade no sistema de partido único pelo que acabou se identificando Stálin. Ele chegou a perceber os males disso e o tremendo mal, a burocratização nos últimos anos de sua vida, quando estava doente, e a sua produção teórica tornou-se mais escassa. Mas ele percebeu isto. Mas foi trágico, porque ele não conseguiu encontrar saídas. As propostas que ele fez para corrigir essa situação também eram burocráticas, ele não fez uma proposta com ampla liberdade que permitisse que uma posição no quadro do socialismo, voltasse a ter direitos, liberdade de imprensa, de reunião, liberdade aos sindicatos mais ampla, estas propostas ele não percebeu que eram a chave para reverter a situação de avanço da burocracia.
Hoje, essas questões estão se colocando em um ponto muito mais elevado, a Rússia já não é um país camponês, é um país industrializado, com uma economia, que, em volume, ao que parece, é a segunda do mundo, e enfrenta problemas que se parecem da década de 1920, mas, por outro lado, têm envergadura muito maior. Então, sobre esse aspecto, eu acredito que se devem estudar as propostas de Lênin juntamente com as de Trotsky, Durkheim.. Enfim, de todos aqueles comunistas, marxistas ou não, nos anos 1920, que alimentaram um debate extremamente fecundo dentro da União Soviética, mas é claro que este debate passa muito além dos anos 1920, e propõe, hoje, questões que eram inimagináveis nos 1920. Basta dizer que, nos anos 1920, não havia armas nucleares, não havia esta possibilidade de autodestruição da humanidade através de uma guerra nuclear, não se vivia uma situação de revolução científica e tecnológica, não se conheciam os novos métodos do capitalismo, fosse na relativa regulação cíclica de crise, fosse na estabilização relativa das reivindicações dos trabalhadores por meio da socialdemocracia. Então, é um mundo bastante diferente, e o marxismo para continuar vivo, como eu penso que continuará, ele terá que dar respostas criativas, novas, que sairão de nossas cabeças. E que dos textos de Lênin, como clássicos, vão depender, principalmente, dos outros métodos que eles permitem empregar para atacar problemas de seu tempo. Este método continua válido também para o nosso tempo. Então era isso.




[1] Esta entrevista aconteceu em Mariana (MG) e contou com a presença e participação do Prof. Ronald Polito.

domingo, 28 de agosto de 2016

Dilma e os ratos no hospício chamado congresso nacional

Não dá para esconder a indignação, o estupor, a raiva, a decepção, o espanto, a tristeza, e a justa convicção de que o que estamos vivendo é um golpe de estado contra a presidenta Dilma. Deixo aqui estas palavras em sinal de protesto e revolta contra esses ratos que assolaram o país e roubaram o voto e a esperança de milhões de pessoas. A democracia acabou! Não sei que tempo é esse que estamos vivendo... Talvez do medo, da repressão, da luta em todos os campos para que esses usurpadores e vampiros sejam destruídos: com Glauber Rocha de Deus e o diabo na terra do sol , "mais forte são os poderes do povo". End.


Fonte: The New York Times, 27-08-2016.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Que tempo é esse?

Nosso Tempo
Carlos Drummond de Andrade
 
I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

[...]
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.


terça-feira, 17 de maio de 2016

Wagner Moura e o golpe