CRISE
DAS IDEOLOGIAS
Entrevista
com o historiador Jacob Gorender, realizada por Mário Alex Rosa; Jardel Dias
Cavalcanti e Jailson Dias Carvalho em 25-09-1990[1]
Introdução
O Núcleo de Estudos
Históricos do Instituto de Ciências Humanas (ICHS), da Universidade Federal de
Ouro Preto, surgiu em um período de profunda apatia na qual se abatia o país no
ano de 1990 e, mais particularmente, naquele Instituto. À medida que foi
amadurecendo, o NEH-ICHS percebeu que era preciso haver produção cultural,
combinada com palestras e debates que, por si e em si, instigariam o pensamento
a exigir sempre mais. O saber é exigente e possui sabor. E foi com este
pensamento que entrevistamos o Historiador Jacob Gorender (1922-2013), importante militante
do PCB, na década de 60, e um dos fundadores do PCBR, autor dos livros Combate nas Trevas (1987) e Escravismo Colonial (1978). Conversamos
sobre a política daquele período; a situação do Marxismo após a queda do Muro
de Berlim e a Perestroika; alguma coisa também sobre literatura e a produção
acadêmica brasileira. Esperamos que os leitores possam mergulhar um pouco nesta
“história viva” e resgatar conosco o saber com saber.
Gostaríamos de saber – já que o senhor
disse que o marxismo está em crise e que esta crise é uma crise de crescimento
[Para um maior aprofundamento, confira a conferência do Historiador Jacob
Gorender: GORENDER, Jacob. Fim do milênio ou fim da História. In: LPH – Revista
de História, UFOP, Mariana, v. 2, n. 1, p. 5-16, 1991] - se é possível confiar
num método em crise? Quais categorias do método marxista seriam confiáveis?
É justamente no método
que devemos confiar, possivelmente, o método que nos permitirá sair da crise, o
apego as certas teses particulares isoladas é que podem dificultar a saída da
crise por parte do marxismo no sentido de uma renovação, de uma concepção
adequada da realidade atual [1990]. Então, o fundamental é exatamente [usar] o
método dialético materialista à nova situação, sem ter qualquer apego à
conservação de teses especiais, que já não correspondem à situação atual. Então,
neste método, o que pode ser considerado aproveitável. Eu creio que, em
primeiro lugar, a visão dialética é que as coisas não são estáticas da vida
social. E, justamente agora, estamos vivendo uma situação de profundas
mudanças, e com esta visão dialética poderemos compreender que não se trata de
um fim da História, mas do contrário, de que a História está transitando numa
situação de uma constelação de forças para outra no plano mundial e, em
particular, em vários países. Em segundo lugar, eu considero que continua
válida a visão marxista de que a base do desenvolvimento social e das
instituições gerais da sociedade está no seu modo de produção, está na
atividade que produz bens e serviços dos quais a sociedade se abastece e que
são indispensáveis à sua sobrevivência. Ainda agora no fundamental, os grandes,
os gravíssimos problemas nos países do chamado socialismo real, o
desmoronamento de alguns deles, resulta, antes de tudo, no fracasso dos métodos
de planejamento burocratizado, ultra-centralizado, que fecharam o acesso da
nova tecnologia da revolução científica tecnológica, e deram origem à formação
de uma camada privilegiada e se superpôs ao conjunto dos trabalhadores. Então,
esta tese continua aplicada também à situação atual. Ao mesmo tempo, é evidente
que a aplicação do método marxista precisa se desvencilhar desse vício que tem
sido tão arraigado da visão economicista, indiscutivelmente, e ampliar a
pesquisa dos fatores econômicos para a pesquisa de toda a espécie de fatores
ideológicos e, mais ainda, recebendo a contribuição de novas correntes
historiográficas, apesar de tudo de negativo que elas possam ter, mas
aproveitando delas essa ampliação para o imaginário, o simbólico, as ideias que
se têm do passado que são residuais, mas que têm influências do presente que,
hoje, afloram como estamos vendo com tanta força no fundamentalismo religioso e
nacionalismos exacerbados.
O que a gente perdeu em 1964, se é que
existe esta categoria perder, e qual a sua ligação com as eleições de 1989 para
presidente da República? O que significaram as eleições para a sociedade
brasileira e para a esquerda. E, no segundo turno, o que significou a candidatura
Lula?
São dois assuntos
distantes no tempo, mas que não deixam de ter certa ligação. Em 64, eu creio
que o que se perdeu no Brasil, por parte das forças democráticas progressistas,
anti-imperialistas em geral, foi a oportunidade de deslocar o Brasil, e de tal
ordem que a hegemonia dos EUA se veria abalada aqui no nosso continente. Foi
isso que se perdeu. Evidentemente, se isso acontecesse dar-se-ia um passo muito
grande no sentido de inaugurar a transição para o socialismo aqui no Brasil.
Mas, em primeiro lugar, o que se conquistaria seria a passagem do Brasil para a
frente anti-imperialista mundial. Já existia Cuba e o Brasil passando para esta
posição, dado a sua grandeza e seu potencial muito maior do que o de Cuba, isto
tem uma significação enorme, mesmo que o país não passasse imediatamente para o
socialismo. Isto levaria algum tempo. Os EUA, os círculos dirigentes
norte-americanos, perceberam isto imediatamente. Daí a interferência constante
do embaixador Lincoln Gordon [1913-2009] naquela época nas questões internas
brasileiras e a advertência direta do presidente Lyndon Baines Johnson [1908-1973]
ao governo brasileiro, quando o governo brasileiro apoiou certas ações
militares, como os sargentos no Automóvel Clube do Rio de Janeiro nas vésperas
do golpe. E, finalmente, quando se declarou o golpe, os EUA mandaram uma força
tarefa naval do Caribe, e que começaram a se dirigir ao Brasil para apoiar os
insurretos. E esta força tarefa, em poucos dias depois, recebeu ordens de se dissolver
porque não era mais necessária, a situação aqui tinha produzido vitória aos
golpistas. Então, por aí a gente vê o quanto o Brasil é importante no esquema
norte-americano e não podemos ter ilusões – porque, se amanhã de fato houver
mudança de posições em nosso país no sentido de desafio à hegemonia dos EUA,
nós poderemos de haver com eles, que procuram asfixiar todos os meios,
inclusive militares. Então, essa oportunidade se perdeu em 64, evidentemente,
por motivos que eu procurei no meu livro Combate nas Trevas [1987], explicar.
É isto que eu posso dizer sobre 64. As consequências nós bem conhecemos. Quanto
à eleição de Lula, foi um fato extraordinário, porque destoou entre outros
aspectos ao conjunto de derrotas que a esquerda vem sofrendo no plano mundial.
Enquanto que, no ano de 1989, todo o leste europeu sentia-se atingido por um
furacão de mudanças, muitas delas levando forças de direita ao poder, em
substituição aos comunistas, de volta ao capitalismo e não de transformação do
socialismo; enquanto isto, aconteciam também os fatos referentes à Praça da Paz
Celestial em Pequim e tantas outras... Aqui no Brasil, o candidato do PT
conseguia uma votação muito importante no primeiro turno, credenciando-o a
passar para o segundo turno, e no segundo turno teve trinta milhões de votos,
47% do total dos votos válidos, isto causou uma impressão muito grande no
mundo, e, em particular, na América Latina, enquanto a esquerda era derrotada
no Peru, no Chile, na Argentina tinha um resultado medíocre. Certa exceção pode
ser também constatada em relação ao Uruguai, onde a frente ampla teve uma boa
votação, 22%, e fez o prefeito de Montevidéu. Mas, no conjunto do mundo, o que
havia era um recuo das forças de esquerda na conjuntura mundial.
Então, essa votação de Lula, mesmo não tendo ganhado
as eleições, causou profunda impressão. Eu pude comparecer como convidado a uma
reunião que se realizou em São Paulo, promovida pelo PT, de 53 organizações de
esquerda da América Latina e do Caribe. Desde PCs de vários países, inclusive
PC de Cuba, até guerrilheiros de El Salvador, grupos trotskistas e grupos de
variadas tendências, e ficou evidente que todas essas forças de esquerda da
América Latina rendiam homenagem muito sincera ao desempenho do PT nas eleições
presidenciais do segundo turno. Infelizmente, não podemos prefigurar pelo que
vai acontecer nestas eleições agora, pois não houve uma continuidade do
desempenho da campanha presidencial com a atual campanha [refere-se à campanha
eleitoral de outubro de 1990], pelo menos na grande maioria dos Estados. É algo
que ainda tem que ser estudado, porque não é um fenômeno de um só Estado, cada
Estado tem características particulares, mas é um fenômeno que está se dando em
plano nacional. O impulso obtido com a eleição presidencial, de certo modo, não
se transferiu à atual campanha eleitoral. Depois, nós teremos a oportunidade de
fazer um balanço disso. Acredito que a direção do PT se empenha neste balanço.
Mesmo porque a campanha eleitoral ainda não terminou e ainda pode haver
recuperação de algumas posições.
A
proposta de George Bush [presidente dos EUA entre os anos de 1981-1989] sobre a
organização latino-americana seria uma nova estratégia do capitalismo para a
América Latina em função de outros blocos que estão se configurando no mundo:
Europa 92, os Tigres Asiáticos, EUA, Canadá e o norte do México? Seria uma
resposta para a América Latina?
Certamente. Como me referi ontem [Conferência sobre Fim
do milênio ou fim da História], a nova estrutura do sistema capitalista mundial
consiste na formação de blocos, já não como no passado, as grandes potências,
cada uma lutando por si, embora houvesse já no passado, alianças, mas havia
sempre fronteiras com barreiras protecionistas... especialmente, nas
conjunturas em crise. Os anos 1930 levaram ao paroxismo e restringiu muito o
comércio mundial.
Hoje, a tática é outra,
as forças produtivas dos países avançados não podem mais se conter dentro de
fronteiras nacionais, produzindo para mercados mundiais, senão não é vantajoso.
Então, em primeiro lugar, procura-se garantir não só o mercado nacional
somente, mas o mercado em bloco, isto é, mais potente, é evidente na Europa
ocidental, que é um aglomerado de nações, muitas bem pequenas, e que hoje está
constituindo um bloco e que, praticamente, já não há fronteiras, o que ainda
sobra destas fronteiras do ponto de vista econômico vai desaparecer em 1992,
criando-se até uma moeda europeia. Mesmo o Japão também há uma integração com
os outros países asiáticos; os EUA já estão integrados com o Canadá, o México
está sendo integrado, particularmente, em sua região norte aos EUA. O
presidente Bush fez a proposta de integração total da América Latina. A América
Latina é considerada a área prioritária dos EUA. A abertura de fronteiras,
cessação dos protecionismos, de livre circulação de mercadorias em todos os
países na América Latina, eis o objetivo. Evidente que se trata de um domínio
do capital norte-americano mais acentuado do que existe agora sobre a América
Latina. Se já com proteção aduaneira, com dificuldade se construiu a indústria
nacional no Brasil, que é o país onde há mais condições para isto dada a
dimensão de seu mercado, é claro que, sem essa proteção, esta indústria, em
parte, não vai conseguir resistir, e a que conseguir resistir vai ter que se associar
a grupos industriais norte-americanos. Com a abertura completa das fronteiras,
a anulação de barreiras aduaneiras, como propõe Bush, a liberdade total de
comércio vai favorecer as grandes corporações norte-americanas. Isto não quer
dizer que nós devemos nos colocar contra a integração econômica dos países da
América Latina, nós não estamos mais nos anos 1950, em que o Brasil formou uma
indústria dentro do seu território, achatando a linha de substituição de suas
importações, isto já é insuficiente e, às vezes, até nem é benéfico, precisamos
absorver a tecnologia, a nova tecnologia que está se aplicando nos países mais
avançados. Mas isto tem que ser feito sobre o nosso comando, examinando caso a
caso, protegendo os setores que continuam a necessitar de proteção e fazendo
acordos entre os vários países da América Latina e do Caribe que estão
envolvidos nesse processo. Então, eu termino dizendo que a proposta de Bush é
uma proposta de aprofundamento do domínio da hegemonia americana nas Américas.
E, nesse sentido, é inaceitável a esmola que ele dá, é o perdão da dívida que a
América Latina tem com o governo dos Estados Unidos, uma dívida de U$
7.000.000.000 de dólares, isto num total de 400.000 milhões. Então, não
representa nada. Mas, de outra parte, temos que propugnar a integração de
nossos países, sobre o domínio de seus representantes legítimos e em defesa
também, porém, de seus interesses legítimos.
Nas últimas eleições, o PT foi uma grande
ameaça para a direita, como o senhor vê hoje a força desse partido?
Você se refere às
eleições presidências de 1989. Sem dúvidas que já respondi aqui. O desempenho
do PT foi realmente admirável e tem grande repercussão mundial e, especialmente,
na América Latina. O fato de o PT ter sido derrotado causou uma impressão muito
profunda em setores consideráveis do PT, e grandes setores de seus aliados. Eu
senti isso, houve um clima de grande decepção, esperava-se que o PT fosse
vitorioso na campanha presidencial, mas, desde o início, considerei que a
vitória era provável, tinha possibilidades, mas era muito difícil, porque o
adversário empregaria todos os recursos, como de fato fez, sem recuar diante
das maiores baixarias. Em minha opinião, só o fato de ter tido 31 milhões de
votos, cerca de 47 % dos votos válidos, isto só, já era uma vitória.
Infelizmente, esse clima de frustração prejudicou o esforço do PT em dar
continuidade do que tinha sido alcançado na campanha eleitoral. A minha
impressão é que o PT ficou uns seis meses, de certo modo, numa atitude de
depressão, isto depois pode ser avaliado. Os primeiros três meses foram aqueles
meses de início de ano em que a política brasileira, normalmente, entra em
baixa, além do mais, havia a expectativa da posse do presidente Collor. Depois
veio o Plano Collor, e o PT ainda levou outros três meses para, afinal, definir
uma posição combativa. Então, essa demora me parece que foi prejudicial, e de
certo modo apagou a presença do PT na mente das massas populares. O que está se
repetindo na atual campanha eleitoral. Agora, quanto ao PT nesta campanha, eu
creio que há certos sinais de desempenhos que não correspondem à expectativa,
mas a campanha ainda não terminou, não vamos prefigurar os resultados. Seja
qual for o resultado, o PT vai continuar sendo uma força de grande expressão no
panorama brasileiro. Todo partido atravessa situações melhores e piores em
campanhas eleitorais. E não é um resultado menos favorável que vai tirar do PT
esta posição que ele alcançou como referencial principal de toda a esquerda
brasileira, e como o partido que pode liderar uma frente de forças de esquerda
no sentido de um projeto por reconstrução socialista em nosso país.
Alguns intelectuais estão avaliando que a
América Latina está “caminhando que nem caranguejo”, ou seja, pra trás. E a
Europa está tomando outro rumo, diante disso, cabe indagar qual o rumo que o
leste europeu está tomando? Um retorno puro e simples ao Liberalismo? E a
América Latina?
Não há dúvida de que,
sobretudo, a partir dos anos 1970, e, em particular, a década de 1980, foi um
período em que a América Latina não avançou, e no seu conjunto ela regrediu. Há
uma queda do PIB, do produto per capita. Há uma acentuação das dificuldades
econômicas e um agravamento do padrão de vida, de uma melhora do padrão de vida
das massas. E muitos países da América Latina ficam receituários clássicos do
FMI, no sentido de debelar o surto inflacionário que assola a grande maioria
desses países. Os anos 1980 são anos em que pesa sobre esses países a dívida
externa, todos eles sofrem os resultados do segundo grande choque do petróleo,
que vem, sobretudo, da guerra Irã-Iraque, que duplica os preços. Isso é sentido
tanto quanto pelos países produtores de petróleo, como o México e Venezuela,
que têm suas receitas drasticamente importadas e se endividam fortemente, como
é sentido pelos países importadores, que são obrigados também a gastar mais do
que previam em petróleo e a cortar importações e, sobretudo, a produzir
superávits a fim de pagar os juros da dívida externa. Então, enquanto os países
do primeiro mundo têm condições de promover uma renovação econômica mediante a
introdução de novos métodos tecnológicos que propiciam enorme acumulação de
capital, na América Latina, se dá o contrário, há um fluxo constante de capital
para fora. A entrada de capital é inferior à saída, saldo negativo, e sendo
países que já são pobres e que têm uma capacidade de poupança bastante
reduzida, a sua situação se torna bem mais instável, e a década de 1980
assinala o crescimento praticamente “zero” no que se refere à renda per capita
da América Latina. E aí se inclui o Brasil, pois a renda per capita é muito
pequena. O Brasil que já vinha há muitos decênios com outro crescimento, um dos
mais altos do mundo, vinha duplicando seu produto. A década de 1990 apresenta
uma perspectiva muito boa. Na prática, não mudou, em particular, em nossa casa,
estamos agora mais num plano anti-inflaconário e, desta vez, profundamente
recessivo.
Em sua opinião, qual a contribuição que a
literatura tem dado para a história? Por exemplo, no início do século XX, temos
Lima Barreto, Euclides da Cunha que, de certa forma, contribuíram para esse
processo histórico via literatura...
Esta é uma pergunta é uma
pergunta genérica, eu não sei. Evidentemente, a literatura, de um lado, é uma
resultante do processo histórico, e que a literatura não está fora do processo
histórico, faz parte dele. E, por outro lado, é nítido também que a literatura
influi porque ela é ideologia, ela forma uma psicologia social, ela se engendra
em certo tipo de mentalidade por parte dos leitores, daqueles que consomem e
absorvem o ensino desta literatura. Isso tem sido em todos os tempos, essa
influência existe desde a literatura mais hermética, mais elitista, a
literatura propriamente popular, a mais popular, como é o caso brasileiro, a
literatura de cordel. Agora, eu não posso fazer uma apreciação de
personalidades em especial como você citou, são de início desse século [XX] o
papel deles, seria entrar em muitos detalhes. Sim, eu não estou muito
atualizado em relação à literatura. Mas me parece que a literatura brasileira
não está atravessando um bom momento atualmente. Ela não apareceu com nomes que
a gente possa avaliar como tais, depois daquelas figuras exponenciais que
vieram dos anos 1930, 1950, 1960, com nenhum romancista novo que, segundo me
parece, se coloque à altura de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, e nenhum poeta
à altura de Carlos Drummond de Andrade e assim por diante. Isso impondo a
produção literária de alto nível de vários países hispano-americanos e mesmo
Portugal, que está numa fase de grande expansão do ponto de vista da literatura
com repercussão mundial de alguns dos seus novos escritores.
Gostaria de saber do senhor os motivos que
o levaram a escrever o livro Escravismo
Colonial [1978]...
Capa do livro O escravismo colonial de Jacob Gorender em sua sexta edição.
Eu já tive a oportunidade de me referir a isso em
várias entrevistas, em particular. O motivo principal: baseei nas grandes
discussões que se travaram na esquerda depois da derrota de 1964, como o PCB
era, naquela época, a maior organização, a sua concepção da sociedade
brasileira foi posta em causa, e isto foi feito por Caio Prado Jr. no livro A
Revolução Brasileira em 1966, que teve muita repercussão. Era muito
discutido nas universidades e nas reuniões clandestinas de esquerda. E, depois
deste quadro, eu fiquei perplexo, de certo modo, sem bases sólidas para
responder a muitas questões quer eram colocadas. Entendi que deveria me
empenhar em História do Brasil, porque, até então, minha atividade intelectual
era ligada a uma atividade conjuntural, e partir daí, que o ano de 1967, em
condição de clandestinidade, eu comecei a empreender esta pesquisa que me levou
à leitura de autores já consagrados como Caio Prado Jr. e outros aos quais
podia ter acesso naquelas condições precárias. E esse projeto se desenvolveu
das minhas circunstâncias bibliográficas que incluíram, naquele momento, até a
minha prisão, que se prolongou durante dez anos, até que eu pudesse concluir
este projeto. Felizmente, eu consegui. Foram estas as razões. Eu queria
contribuir para um esclarecimento à sociedade brasileira de que a escravidão
era uma questão chave, a primeira questão chave que precisava ser respondida e
daí lutei em escrever um livro um tanto prolongado com pretensões de síntese,
mas, apesar de ser pretensioso, eu considero que poderia me repreender em fazê-lo.
A pesquisa se desenvolveu fora dos muros universitários. Eu não pertencia à
universidade, e ainda vivia na época do Médici [1969-1974], depois no governo
Geisel [1974-1979], então, eu tinha muito pouco contato com intelectuais
acadêmicos, que eu cito muitas vezes. E o fato do livro ter um caráter
acadêmico foi intencional, porque eu queria que o livro tivesse uma plena
fundamentação, fosse inaceitável por esse lado, e, depois, não viessem a dizer
que são chutes, são afirmações sem base, porque, infelizmente, a produção
teórica de nossa esquerda, até hoje, predominante, é na base de afirmações que
não são lastreadas em pesquisas, e fundamentos etc. Apesar de haver certa
melhora, ela ainda é pouco significativa nestes aspectos. Então, eu pretendi
que, no caso do meu livro, cada afirmação que eu fizesse fosse de fato
fundamental. Daí o acúmulo de notas de rodapés, citações etc. Resumindo: sem
dúvida, um aspecto acadêmico, embora sua estruturação não seja, na maioria,
propriamente acadêmica. E o que eu posso notar hoje é que o livro tem mais
repercussão dentro dos meios acadêmicos do que propriamente na esquerda, na
esquerda acadêmica. Na esquerda, em geral, ele pode ser conhecido, e vai
tornando mais conhecido, mas ainda é pouco lido. O que eu atribuo, de uma
maneira geral, é ao fato de que a nossa esquerda lê pouco. Ainda acontece até
hoje.
Diante
dessa crise dos acontecimentos que estamos vivenciando hoje no mundo [queda do
Muro de Berlim, Massacre na Paz Celestial em Pequim, etc.], como podemos
considerar esse projeto socialista... Em primeiro lugar, em relação, por
exemplo, ao legado leninista, da questão da teoria do partido, do centralismo
democrático; teremos que pensar na teoria do partido socialista, tal como
existe até hoje; na questão do Estado, como, por exemplo, a República Soviete.
Nós teremos que incorporar elementos do parlamento burguês na organização do
Estado e, particularmente, em termos de viabilidade do projeto socialista em
função da falência do stanilismo e em função da falência da crise da luta
armada, inviabilidade do eurocomunismo. Qual é a via pro socialismo nos dias
atuais?
Esta pergunta é muito ampla, pediria mais uma
conferência [risos] para respondê-la. Acho importante, em primeiro lugar, o que
se chama de herança leninista que também está em discussão. O que é válido
nela, o que não é, até que ponto nós poderemos partir de Lênin, o que não
devemos aceitar, das suas afirmações, das suas teses, das suas tomadas de
definição em um momento ou outro. Eu, em particular, não uso o termo leninista,
eu só falo em marxismo, já há muito tempo, antes da Perestroika, vocês podem
ver em meus textos que não existe essa expressão marxismo-leninismo, porque eu
acho que a produção de Lênin tem elementos que de fato são universais, mas não
justificam que criem esse termo. E, em grande parte, Lênin é especificamente
russo, o que ele fez, a sua atuação nos processos revolucionários têm a marca
das circunstâncias da Rússia, e não podem ser transportados para outros países,
essa que foi uma grande tragédia, transpor um modelo russo, que já era mau para
a Rússia, para todo o leste europeu, e que, através da III Internacional, se
tornasse universalizada. Agora, as outras questões: é claro que nem ele tem
responsabilidade no sistema de partido único pelo que acabou se identificando
Stálin. Ele chegou a perceber os males disso e o tremendo mal, a burocratização
nos últimos anos de sua vida, quando estava doente, e a sua produção teórica
tornou-se mais escassa. Mas ele percebeu isto. Mas foi trágico, porque ele não
conseguiu encontrar saídas. As propostas que ele fez para corrigir essa
situação também eram burocráticas, ele não fez uma proposta com ampla liberdade
que permitisse que uma posição no quadro do socialismo, voltasse a ter
direitos, liberdade de imprensa, de reunião, liberdade aos sindicatos mais
ampla, estas propostas ele não percebeu que eram a chave para reverter a
situação de avanço da burocracia.
Hoje, essas questões estão se colocando em um ponto
muito mais elevado, a Rússia já não é um país camponês, é um país
industrializado, com uma economia, que, em volume, ao que parece, é a segunda
do mundo, e enfrenta problemas que se parecem da década de 1920, mas, por outro
lado, têm envergadura muito maior. Então, sobre esse aspecto, eu acredito que
se devem estudar as propostas de Lênin juntamente com as de Trotsky, Durkheim..
Enfim, de todos aqueles comunistas, marxistas ou não, nos anos 1920, que
alimentaram um debate extremamente fecundo dentro da União Soviética, mas é
claro que este debate passa muito além dos anos 1920, e propõe, hoje, questões
que eram inimagináveis nos 1920. Basta dizer que, nos anos 1920, não havia
armas nucleares, não havia esta possibilidade de autodestruição da humanidade
através de uma guerra nuclear, não se vivia uma situação de revolução
científica e tecnológica, não se conheciam os novos métodos do capitalismo, fosse
na relativa regulação cíclica de crise, fosse na estabilização relativa das
reivindicações dos trabalhadores por meio da socialdemocracia. Então, é um
mundo bastante diferente, e o marxismo para continuar vivo, como eu penso que
continuará, ele terá que dar respostas criativas, novas, que sairão de nossas
cabeças. E que dos textos de Lênin, como clássicos, vão depender,
principalmente, dos outros métodos que eles permitem empregar para atacar
problemas de seu tempo. Este método continua válido também para o nosso tempo.
Então era isso.
[1] Esta entrevista aconteceu em
Mariana (MG) e contou com a presença e participação do Prof. Ronald Polito.
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